Muitos soteropolitanos quando passam um tempo fora de Salvador ao chegarem fazem uma visitinha ao Bonfim
(Praia da Boa Viagem). Saravá!!!
Adilma


Ontem à noite levando minha tia em casa, deparamo-nos com um traveco desfilando no asfalto, em plena Big Farm (o povo anda no meio da rua e quem estiver dirigindo que espere).
Imaginem: cabelos loiros estilo miojo, no meio das costas, mini blusa frente única, andar bamboleante, salto alto, calça jeans muitoooo justa, cintura muitoooo baixa, e para completar... Um celular repousando no cofrinho...
A “gata” estava se achando! Pena não ter uma câmara para tirar uma foto na hora. Eu e minha tia demos muita risada.
Adilma
E eu minha tia vivemos trocando os nomes da gente. É uma coisa terrível!
Um dia ela estava em minha casa e eu querendo chamar meu filho João Vitor disse:
- Ô Geu, venha cá meu filho...
E minha tia respondeu:
- Oxente Adilma tá ficando brôca? Geu o quê! Ubiraaaaa!!
João, é claro, contou essa no nosso encontro. Foi uma gargalhada generalizada.
Adilma
Petrúcio... Essa é boa...Numa dessas audiências de conciliação, apesar de não ter ainda a necessidade de um advogado, somente do preposto, uma advogada de defesa da empresa, recém admitida, me acompanhou e tomou a frente, isto porque o objetivo dela era treinar mesmo.
Quando chegou a vez dela falar disse que o autor usou termos de “baixo escalinho”. Todos na sala olharam para a moça. E a conciliadora quis aprofundar o entendimento. A advogada respondeu:
- Não tem palavras “de baixo escalão”? Os termos que o autor usou não eram assim tão altos... (?!)
Meus amigos! Tenho certeza que vocês fariam o mesmo que eu. Essa advogada nem chegou a cumprir o período de experiência na empresa. Levou cartão vermelho. Eu fiquei virada, mas resolvi chegar a um acordo com o cliente, que estava de certo modo correto na sua pretensão, fiquei morrendo de vergonha da advogada neófita e, diga-se de passagem, jumenta.
AdilmaNo dia que saímos para o Ímbui, chegamos num barzinho e sentei ao lado de Ubira, enquanto Geu e Nanda sentaram-se do outro lado da mesa. Havia uma mesa próxima com quatro mulheres. Percebi que uma delas, tão logo chegamos, começou a olhar para Ubira. Eu não disse nada a ele, mas era evidente que a mulher “secava” meu irmão.
Fiquei besta. Eu e ele poderíamos ser um casal. Não é mesmo? A mulher não tava nem aí! Num determinado momento ele e Geu levantaram-se, então aproveitei e comentei com Nanda. Resolvi aprontar... Fixei o olhar na mulher que estava paquerando Ubira. Fuzilei a piriguete com meus olhinhos pequenos.
Acho que minha atuação valia um Oscar! Rsrsrsrsrsrs. A mulher mudou de lugar!!! Quando saímos contei a Ubira. Ele, sonso que só, respondeu: Mulher me olhando? E foi? Eu nem percebi...
Adilma
Fernando é mediador na escola. Que tempo estamos vivendo afinal? Eu realmente não entendo o que está ocorrendo.
Sempre estudei em escolas públicas. No Colégio Alípio Franca, da 5ª à 8ª série, tive aulas de inglês, francês, artes, educação sexual, música, religião, desenho técnico, handebol, educação física, organização social e política. Fora as disciplinas do currículo normal – português, matemática, geografia, história, etc. O colégio é pequeno e não oferecia (ou não oferece) conforto. Toda sexta a bandeira do Brasil era hasteada, enquanto cantávamos o Hino Nacional. Era uma honra ser escolhido para hastear a bandeira.
Formávamos uma fila, antes dessa cerimônia, e éramos vistoriados. Unhas, cabelos, farda, sapato, tudo deveria estar limpo e em ordem. Se alguém estivesse com a farda suja ficava na diretoria até encerrarmos. E levava para casa uma notificação na caderneta que deveria voltar assinada pelo pai, mãe ou responsável. O líder da classe era encarregado de recolher as cadernetas diariamente para aposição do carimbo de PRESENTE. Fui líder nos 4 anos e adorava exercer minhas funções. Havia regras a serem seguidas e eu costumava subvertê-las.
Nesse tempo professores eram chamados de senhor e senhora, nada de tia, ou “você”. Se alguém alterasse a voz com um professor era suspenso e só entrava na escola, após o período da suspensão, acompanhado pelo responsável. Tinha um médico que toda sexta (dia de aula de educação sexual) estava disponível para tirar dúvidas e orientar.
O governo não disponibilizava livros, os pais tinha que comprar, os alunos tinham que usar farda completa, não entravam se faltasse o escudo na blusa, não havia meia passagem escolar. Eu pegava quatro ônibus para ir e vir. Tempos difíceis. A merenda era servida pelo governo. Geralmente leite com chocolate acompanhado por um sanduiche muito ruim - pão com margarina e ameixa seca.
Fundei um jornalzinho (não me lembro do nome) e a escola me deixava usar a máquina elétrica de escrever, depois que comprovei que sabia utilizar, mas era minha responsabilidade se houvesse qualquer problema. Eu fazia as matérias, datilografava num estêncil (os jovens nem devem saber o que é isso!) e passava no mimeografo (outra coisa do passado distante). Os exemplares eram distribuídos entre alunos e professores. Depois alguns colegas começaram a participar, escrevendo poesias e textos. Eu também gostava de promover festinhas na sala de aula em ocasiões como São João, Dia do Estudante, etc. Cantava no coral e me apresentei em alguns eventos na Igreja do Bonfim, assim como na escola. Adorava participar de tudo.
Havia brigas entre os estudantes, havia aqueles que não estudavam, havia quem usava drogas, mas nada que não se resolvesse com uma boa suspensão. Eu não era fácil. Filava (gazeava) aula para jogar bola, para namorar escondido, para assistir filmes impróprios (hoje mais inocentes que as novelas das 6h), para escutar música. Inclusive numa dessas fui pega por minha tia e a coisa não prestou! Mas, de modo geral, fui boa aluna, tirava boas notas, nunca fiquei em recuperação. E com isso angariava a simpatia dos professores.
Lembro-me que um dia um aluno foi flagrado com um canivete na pasta (não existia mochila) e por causa disso foi expulso. Sem ter uma segunda chance. E todos ficaram sabendo. Foi vergonhoso, desonroso. Ninguém queria aquilo para si.
Com saudosismo lembro-me de tudo isso. É como se fosse outra vida, como se muitos e muitos anos me separassem dessa realidade para a que vivemos atualmente. Como se fosse uma fantasia, como se não fosse verdade, como se fosse um mundo idealizado, fossilizado, perdido.
Eu gostaria muito de entender o que se passou nos últimos 30, 40 anos, principalmente nas escolas. Que mudança a sociedade sofreu a ponto de professores serem feridos, estudantes serem mortos em brigas entre si, tráfico de drogas e tudo o que sabemos que ocorre. O Estado avançou muito em assistencialismo ao estudante. No Brasil, na rede pública de ensino, são distribuídos livros, fardas foram abolidas, não se reprova estudante, há liberdade de expressão, há subsídio para o transporte, não existem mais disciplinas “caretas”, não se canta o Hino Nacional e muito menos o Hino à Bandeira, ou seja lá qual for. E tudo isso invés de ajudar, parece ter piorado o relacionamento na escola.
Adoro o progresso, o conhecimento, as facilidades que dispomos mais e mais. Tenho certeza que o homem um dia, no futuro, ainda vai viajar através de tele transporte, como nos filmes de ficção científica. Porém, acho que estou envelhecendo ou já envelheci. Sou de outra época mesmo. Tempo em que tudo era diferente e, parece-me, mais coerente. Espero que Deus tenha mesmo piedade de todos nós.
Adilma